O Globo Prosperidade
Progresso e contradições de Porto Velho, a cidade sacudida pela construção simultânea de duas hidrelétricas
Publicada em 07/08/2010 às 17h57m
RIO.- Como o tijolo é pouco para tantos pedidos, o preço do milheiro disparou. A poucos metros da olaria, cruzando a rua de saibro, surge um novo bairro. Uma das moradoras arrisca: "Vai se chamar Porto Cristo". Mas o ex-oleiro Terivânio Ribeiro, elevado a empreiteiro, não tem tempo para espiar os casebres que despontam em lotes recém-fatiados. Ele apressa os operários que batem o barro, cortam as línguas de argila que brotam da máquina, transformando-as em tijolos, para levar ao cozimento.
Pilhas de madeira aguardam a vez de ir ao forno. O ar, embebido de poeira, acentua o aspecto barrento do lugar. No fim do dia, mais quatro mil tijolos serão lançados de seu ventre no fenômeno que mudou o eixo das migrações amazônicas: a explosão econômica de Porto Velho, empurrada pela construção simultânea de duas usinas hidrelétricas nos arredores da cidade, como mostra a reportagem de Chico Otávio na edição do O Globo deste domingo. (Clique aqui e veja imagens das transformações em Porto Velho com a construção das hidrelétricas)
A capital de Rondônia, que já passou pelo apogeu da borracha e do ouro, vive hoje o ciclo do cimento. As barragens de Santo Antônio e Jirau, no Rio Madeira, cujas obras começaram no ano passado, abriram 23 mil empregos diretos na região. Porto Velho virou um imenso canteiro de obras, do Centro à periferia pobre. Bairros novos, como "Porto Cristo", avançam em suas bordas. O número de veículos duplicou. Os motoristas conheceram os engarrafamentos e os primeiros malabaristas de sinal. Os aluguéis subiram 300%. A cidade ganhou um shopping e se verticaliza, embalada por cerca de 60 obras. A população, hoje de 350 mil habitantes, deverá saltar para 500 mil no próximo censo.
As obras, faraônicas, lembram o "integrar para não entregar" da época do regime militar. Mas, em tempos de democracia, exigiram detalhadas negociações com os atores envolvidos (comunidades ribeirinhas, índios, Ministério Público, prefeitura, governo estadual e Ibama). Uma das construtoras envolvidas, que ajudara a erguer a hidrelétrica de Samuel na ditadura, quando era só escolher o local a ser alagado, desta vez teve que erguer até um abatedouro de jacaré para conquistar os caboclos do Madeira.
Leia a reportagem na íntegra abaixo:
O progresso acelerado e as contradições de Porto Velho, a cidade sacudida pela construção simultânea de duas hidrelétricA ZONA LESTE é a região da cidade que mais cresce: oferta de empregos e lotes mais baratos, fruto de invasões, ampliam os limites de Porto Velho. No Centro, carros e motos tomam conta das ruas, agora engarrafadas, e levam os operários aos imensos canteiros de obras das usinas de Santo Antônio (foto) e Jirau em trechos do Rio Madeira, nas imediações da cidade
Por Chico Otavio
As obras, faraônicas, lembram o “integrar para não entregar” da época do regime militar. Mas, em tempos de democracia, exigiram detalhadas negociações com os atores envolvidos (comunidades ribeirinhas, índios, Ministério Público, prefeitura, governo estadual e Ibama). Uma das construtoras envolvidas, que ajudara a erguer a hidrelétrica de Samuel na ditadura, quando era só escolher o local a ser alagado, desta vez teve que erguer até um abatedouro de jacaré para conquistar os caboclos do Madeira.
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A expressão mais forte do desenvolvimento súbito de Porto Velho não está nos paredões monumentais das represas, da altura de prédios de 45 andares. Para entendê-lo, basta examinar o tamanho do prato de comida dos operários, igualmente monumentais, servidos nos canteiros-cidade às margens do Madeira ou abrir a geladeira da neocomerciante Aparecida Souza da Silva, abarrotada de “Dydyo Cola”.
— Não sabe o que é Dydyo? — pergunta ela, surpresa com a ignorância de seus interlocutores.
Bebida regional, Dydyo Cola é o carro-chefe dos negócios de dona Aparecida. Ela chegou com a família (marido e dois filhos) há três meses de um sítio nas cercanias de Porto Velho para ocupar um lote em área recém-invadida da Zona Leste da capital. O marido logo foi chamado para “trabalhar de motorista para um doutor, carregando areia”. E ela, para não ficar parada, abriu uma birosca na casa de um único cômodo.
— A quem me pede vaga, não há outra resposta. É não — admite a irmã Carmen Baseggio, diretora da Escola Marcelo Cândia (subsede 1).
Mas no MP, o clima repete o de outros serviços públicos: correria para recuperar o tempo perdido. O progresso nas ruas parece estar alguns passos à frente das autoridades. Somente em agosto, quando as obras já estavam a pleno o vapor, a Procuradoria Geral de Justiça criou um grupo multidisciplinar para acompanhar o seu impacto.
Saneamento precário, igarapés transformados em valas negras, aumento da prostituição e da violência, ausência de planejamento viário. Nada disso dobra o entusiasmo da população local e dos que chegam para alargá-la. As oficinas de qualificação profissional correm para formar especialistas. Já não há marceneiros e pedreiros para tanta demanda. As mulheres, antes quase restritas à sobrevivência no balcão das lojas, hoje viraram operárias.
— Tenho medo de altura, mas a paixão pela máquina é maior — disse Natielen do Nascimento, ao operar com a sua escavadeira na beira de um barranco em Santo Antônio.
Ex-auxiliar de escritório e mãe solteira, aos 22 anos, com uma filha de 7, Natielen comprou o seu primeiro carro em janeiro.